A palavra mais pronunciada nos últimos tempos virou justificativa para tudo. Perdeu a cabeça no trânsito e agrediu um motoqueiro? Sofreu bullying na infância, coitado. Matou a mãe e foi ao cinema? Bullying. Tem problemas de relacionamento no trabalho e ataques de fúria quando é criticado pelo chefe ou por um colega? Bullying na faculdade. Atacou um cliente transexual no Mc Donald's? Bullying, claro. O senador tem um piti porque não gostou da pergunta do repórter, rouba um gravador e depois charaminga: "Só fiz isso porque o jornalista praticou bullying contra mim". O Bush deve ter sofrido bullying também.
Até outro dia, ninguém sabia da existência dessa palavra. Agora, está na boca do povo. O que não é ruim, pois escancara um problema. Mas virou justificativa para tudo, mais um "álibi" para aquelas pessoas que não assumem responsabilidade pelos seus atos.
Não vou aqui minimizar as agressões cada vez mais frequentes em todas as esferas de relacionamento - estamos cada vez mais egoístas, cada vez mais nos lixando para o sentimento alheio, para a comunidade. Mas acho que precisamos discutir o uso desenfreado não apenas da palavra (que, aliás, tem equivalente na nossa língua), mas do conceito, do princípio.
Qual o limite da brincadeira saudável entre amigos e a agressão psicólogia, que pode evoluir para agressão física? Qual o limite, no ambiente de trabalho, entre uma reclamação por um trabalho mal feito e o assédio moral - o "bullying corporativo"?
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As escolas têm feito um trabalho muito bacana de combate ao bullying. Válido e necessário. Quantos de nós não trazem traumas de infância por terem sido alvo de "brincadeiras" na escola, na rua? Mas só na escola não adianta, né?
Um pai que ensina uma criança de dois anos a xingar um são paulino de "viadinho" (vídeo popular no youtube), pode estar formando um potencial agressor de gays na avenida Paulista. Uma mãe que vive em função de ficar magra, que só pensa em dieta e exercício, que controla o que a filha pré-adolescente come de um jeito "abusivo", está ajudando a formar uma adolescente que excluirá amigas fora do padrão de corpo estabelecido pelas revistas. Uma família que acha que, porque paga a escola, o professor é empregado de seu filho e está lá para servi-lo, um dia pode receber uma ligação da escola avisando que seu filho, na melhor das hipóteses, furou os pneus do carro de um professor que "lhe deu uma nota baixa".
Não adianta eu reclamar na escola que meu filho sofreu bullying e me referir às pessoas como "aquele neguinho", "aquele boiola", "aquela piriguete", "aquela gorda", fortalecendo preconceitos e esteriótipos.
Os pais não podem largar os filhos na escola, no curso de inglês, na natação, contratar "personal educator" e achar que professores, treinadores, psicólogos vão fazer um papel que não lhes compete unicamente. Assumam seu papel, virem cidadãos decentes e ensinem aos seus filhos o que é ser cidadão.
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Atacar um transexual ou um adolescente "gordo" não é bullying: é agressão, crime. Seguir um carro que te fechou, não é bullying. Do mesmo jeito que um menino de 5 anos chamar o coleguinha de bobo também não é.
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Atacar um transexual ou um adolescente "gordo" não é bullying: é agressão, crime. Seguir um carro que te fechou, não é bullying. Do mesmo jeito que um menino de 5 anos chamar o coleguinha de bobo também não é.
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