Segunda-feira, Dezembro 27, 2010

Agora estou livre. Mas demorou

Queria te contar um segredo. Pode? Guardo há um tempão, mas agora acho que já posso falar. Porque estou livre. Então se prepara. Peraí: antes de contar, quero te pedir desculpa. Foi tudo pra não te magoar, pra ser sua parceira, sua companheira mesmo - a gente prometeu lá na frente do padre, né? Então, é o seguinte: nunca torci pro Vasco. Cada vez que a gente ia pro Maracanã e você me fazia vestir aquela camisa, eu amaldiçoava e torcia contra. Com todas as minhas forças. Sempre fui flamenguista. Só deixei as fotos que denunciavam isso no baú da minha mãe pra você não ficar chateado com essa mentirinha. Queria te agradar. Achei que depois de casados você ia ficar menos fanático, mas piorou. Sabe-se lá o que são 20 anos querendo gritar a cada vitória do Flamengo e ter que engolir o grito? Mas agora estou livre. De torcer pelo Vasco e da mentira. Ufa. Demorou.
Outro segredo: eu odiava o Brizola. Odiava, odiava, odiava. Cada vez que eu o ouvia falar "intérésses", tinha vontade de atravessar a televisão e dar um murro nele. Mas você ficava tão emocionado, que não tinha coragem. Aí ele morreu e pensei: "vá com o diabo que te carregue". Mas você continuou cultuando a memória daquele mala. Porra, Alberto. Fiquei até com ciúme da tua tristeza. Mas agora estou livre. De ouvir histórias do Brizola.
Só mais um segredo e juro que o resto era genuíno. Odeio a rabada da tua mãe. Odeio agrião, aquela gordura toda. Cada domingo que você me fazia almoçar com seus pais era um engov antes e outro depois. Só engov pra me fazer aguentar aquilo.
Por isso que marquei o funeral logo pra hoje. Amanhã é domingo, já encomedei uma feijoada pra minha mãe. Depois vamos pro Maracanã, assistir o Flamengo dar um sacode no Vasco e eu vou estar no lado certo da arquibancada. E sobre política, Alberto, eu sou anarquista. ANARQUISTA, tá me ouvindo?
...
Pronto, moço, pode fechar o caixão. Não, peraí: ajeita melhor essa bandeira do Vasco e o lenço vermelho antes de fechar. Tchau Alberto. Agora estou livre. Ufa, demorou.

Quinta-feira, Dezembro 16, 2010

Hoje é dia de Maria - de Nazareth

O quarto dela era o encontro das tias e tinha cheiro de pó de arroz e de talco, e invadir a penteadeira e o guarda-roupa dela era maior das aventuras. Os sacos de moeda "escondidos" no armário por ela eram o nosso tesouro de férias, financiando os sacolés vendidos pela vizinha. E os nomes do casal de pequinês - a ruiva Ginger e o negro Ébano - demonstravam um senso de humor diferente para aquele ambiente. E os biquinis costurados por ela eram os mais bonitos de todos, assim como as roupas da moda, com as cores da moda, tinham os melhores acabamento, e o café da manhã que ela fazia aos domingos eram os mais gostosos de todos os tempos; e a distância que ela mantinha de todos nós, enquanto passava os dias sentada atrás da máquina de costura, no quarto dos fundos, tomando café frio. O kit de manicure tinha as cores mais legais de esmalte e o gosto esquisito de tomar café com bolinho de bacalhau no bar da esquina no banco onde recebia a pensão, para onde eu ia de madrugada para guardar lugar na fila e esperá-la chegar depois das 8h. 
E eu lembrei de tudo isso hoje, porque ela deveria estar aqui, comemorando seus 84 anos, talvez um pouco mais brava e mais distante, e porque cultuamos durante tanto tempo a figura masculina dessa família, mais expansiva, mais risonha, mais carinhosa, e esquecemos da elegância discreta da dona Nazareth, a Net, a Netinha, que tinha aquele sotaque tão lindo, tão alagoano. 
E porque, mesmo distante, atrás da máquina de costura, e brava, fingia que não via que os netos furavam o saco de moedas para comprar sacolé, fazia roupas pra gente com carinho e fazia questão da casa cheia, de gente, de confusão, de briga, de comida, de criança, de cachorro, enfim, cheia daquela família que a dona Nazareth não deixou desmanchar quando catou as duas filhas pequenas em Maceió e foi atrás do marido no Rio de Janeiro.

Domingo, Dezembro 12, 2010

Hoje é dia de feira

O cheiro forte do fruto espinhento e amarelo do cerrado gruda no nariz, ainda no estacionamento. Pronto, chegamos à feira e tem piqui.
Depois, ao aroma do piqui incorporam-se outros: peixe, cheiro verde, de hortaliças molhadas, hortelã, galinha viva, queijo, café coado, tapioca, bolo de mandioca.
As gentes das barracas estão todas animadas, com cara de que estão de pé há muitas horas, apesar de o relógio marcar poucos minutos depois das 7h da manhã.
Os clientes mais jovens arrastam o chinelo e escondem o sono atrás de grandes óculos de sol. Mas estão lá, sentindo o mix de aromas, com notas fortes de piqui, para começar bem o domingo.
Os mais velhos se conhecem, botam a conversa em dia, com feirantes e outros clientes, brincam com as crianças, com os cachorros, tomam café e compram pão de queijo para completar o café da manhã do resto da família, que decidiu começar o domingo mais tarde.
E como minha necessidade era pouca, depois de umas pencas de banana, laranja, biscoito de coco, pão de queijo congelado e peta, me despeço, carregando bagagem extra: o cheiro de piqui grudado no nariz e a algazarra, no ouvido.
Domingo que vem tem mais.

Sábado, Dezembro 11, 2010

Natal 2010

De vez em quando dá uma angústia de saber que o Natal será passado em três, dos quais um é completamente insensível e outro liga mas finge que não. Daí, no meio da melancolia, a luz acende: não será preciso enfrentar supermercado lotado para compra de ingredientes de ceia, nem lojas de brinquedos ou o que valha para presentar uma turba ansiosa por mimos.
Três presentes de R$ 20,00 para ser sorteados na hora, um pedaço de carne na churrasqueira e beatles de trilha sonora. Talvez comece aí a tradição natalina da família dó-ré-mi, sem visita ao psicólogo no dia 26.

Domingo, Dezembro 05, 2010

O individualismo nosso de cada dia

O casal de quero-quero estava indócil. Cantava/gritava, voava, cantava/gritava voava. Os quatro cavaletes para os quais olhavam atentamente serviam de apoio para alguém amarrar o tênis, para a bolsa de outro alguém, para o cotovelo enquanto alguns amigos conversavam.
E lá no meio dos cavaletes, quatro ovinhos, já esfriando, enquanto a fêmea não conseguia chocá-los, tal o desepero de ver aquelas milhares de pessoas passando pelo seu lugar sagrado. Pediu ajuda ao macho, que também não sabia o que fazer para expulsar todo mundo de lá.
A culpa - se é que alguém tinha culpa - não era necessariamente de alguém. O evento estava marcado para ocorrer ali, onde a fêmea de quero-quero resolveu botar seus ovos e fazer seu ninho. A organização ainda foi "bacana" e colocou os cavaletes protegendo. Mas ninguém percebia, de primeira, que havia um ninho esfriando. Precisava que alguém da "equipe de staff" - sim, vocês leram bem, "equipe de staff", como o apresentador se referia à turma - avisasse aos distraídos.
Quem organizou o evento poderia ter recuado as barracas uns metros e deixar o casal e seus futuros filhotes em paz, mas a "equipe do staff" considerou que os cavaletes estavam de bom tamanho.
Mas a questão é: as pessoas só saíam de perto quando alguém lembrava que a fêmea poderia ficar agressiva e sair bicando todo mundo. Saíam, mas não sem antes registrar com uma foto o desespero da mãe e os ovos esfriando, abandonados à própria sorte.
Isso, apesar de duas pessoas, que não eram da "equipe do staff", ficarem vigiando os ovos e avisando a todo mundo que precisávamos deixar a área livre para a fêmea se sentir segura e voltar a chocar seus filhos, antes que fosse tarde demais.

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Medo de levar bicada de quero-quero...Ora vejam só.

Sábado, Dezembro 04, 2010

Cometimentos

um dia, decidiu enfrentar o mundo; havia cansado de fugir. mas o mundo desistiu de esperar: ficou falando sozinha.

Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

Viagem fotográfica com Walter Firmo (em Paris!)

Vamos olhar Paris de outros ângulos?
De 8 a 20 de janeiro de 2011 o fotógrafo carioca Walter Firmo embarca para Paris para o workshop "Em Paris com os Sete Ases de Ouro e um Curinga"
Durante 12 dias, com aulas práticas e teóricas, serão apresentados aos alunos sete grandes mestres da fotografia francesa seguindo seus passos pela cidade Cidade-Luz. Os fotógrafos Nadar, Eugéne Atget, Brassai, Jacques-Henri Lartigue, André kertesz, Robert Doisneau e Henri Cartier-Bresson formam a equipe do sete ases de ouro, que encabeçados pelo curinga Walter Firmo irão proporcionar uma bela viagem fotográfica pela capital francesa.
Informações: walterfirmo.cursos@gmail.com


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Post ilustrado com fotos de Walter Firmo.