Queria te contar um segredo. Pode? Guardo há um tempão, mas agora acho que já posso falar. Porque estou livre. Então se prepara. Peraí: antes de contar, quero te pedir desculpa. Foi tudo pra não te magoar, pra ser sua parceira, sua companheira mesmo - a gente prometeu lá na frente do padre, né? Então, é o seguinte: nunca torci pro Vasco. Cada vez que a gente ia pro Maracanã e você me fazia vestir aquela camisa, eu amaldiçoava e torcia contra. Com todas as minhas forças. Sempre fui flamenguista. Só deixei as fotos que denunciavam isso no baú da minha mãe pra você não ficar chateado com essa mentirinha. Queria te agradar. Achei que depois de casados você ia ficar menos fanático, mas piorou. Sabe-se lá o que são 20 anos querendo gritar a cada vitória do Flamengo e ter que engolir o grito? Mas agora estou livre. De torcer pelo Vasco e da mentira. Ufa. Demorou.
Outro segredo: eu odiava o Brizola. Odiava, odiava, odiava. Cada vez que eu o ouvia falar "intérésses", tinha vontade de atravessar a televisão e dar um murro nele. Mas você ficava tão emocionado, que não tinha coragem. Aí ele morreu e pensei: "vá com o diabo que te carregue". Mas você continuou cultuando a memória daquele mala. Porra, Alberto. Fiquei até com ciúme da tua tristeza. Mas agora estou livre. De ouvir histórias do Brizola.
Só mais um segredo e juro que o resto era genuíno. Odeio a rabada da tua mãe. Odeio agrião, aquela gordura toda. Cada domingo que você me fazia almoçar com seus pais era um engov antes e outro depois. Só engov pra me fazer aguentar aquilo.
Por isso que marquei o funeral logo pra hoje. Amanhã é domingo, já encomedei uma feijoada pra minha mãe. Depois vamos pro Maracanã, assistir o Flamengo dar um sacode no Vasco e eu vou estar no lado certo da arquibancada. E sobre política, Alberto, eu sou anarquista. ANARQUISTA, tá me ouvindo?
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Pronto, moço, pode fechar o caixão. Não, peraí: ajeita melhor essa bandeira do Vasco e o lenço vermelho antes de fechar. Tchau Alberto. Agora estou livre. Ufa, demorou.

